segunda-feira, 22 de novembro de 2010

['Cause you and me is two of a kind]

Derramaria cada lágrima novamente, te chamaria de infantil mil vezes, sentiria vontade de te bater e te beijar e me entregaria todos os dias se eu pudesse adivinhar que seria assim. Pintaria um ano no calendário. Odiaria cada foto nova que você publicou. Iria até a Royal te encontrar quantas vezes no dia você quisesse. Voltaria te odiando a cada uma dessas vezes. Passaria outras tantas noites acordada escutando Jewel e Portishead, imaginando aonde você poderia estar. E choraria novamente, porque aquelas músicas eram tristes demais e eu queria acabar com tudo. Eu rezaria todas as noites pra te esquecer, eu faria novas promessas. Eu olharia pra cada canto da cidade e veria alguma coisa que eu sabia que você ía gostar se estivesse ali, do meu lado. E lamentaria, novamente, por você nunca estar.
Eu esperaria o tempo que fosse.
Eu faria tudo de novo...

...Se eu soubesse que seria assim no final.


Nada e nem ninguém consegue me fazer mais feliz.
Amo você e isso nunca pára!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

[She loves me not]

Era engraçado ver como ela o olhava. Sabia fingir bem. Sabia que aquela era a resposta que ele daria para sua perguntas. E ela o olhava, sem parar, constrangendo o rapaz, fazendo-o pensar que ela tinha uma faca bem no meio do peito.
Ela, com o olhar fixado em um ponto, conseguia ver tudo o que acontecia em volta. Premeditava movimentos, via o que não estava ali. Ela sabia muito mais do que ele imaginava. Sabia quem ele era, sabia o que ele pensava, enxergava o gelo que ele carregava no peito.
Ela cobrava o que nunca dava. Ela queria ter o que não tinha para dar. Roubava pra ela aquilo que roubaram dela.
O coração.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

[Cadê o amor que estava aqui?]

A típica pessoa que vive de amor e cabana. Come amor, respira amor, veste-se de amor.
É amor por ela mesma, pelo outro, pela árvore, pelo mundo. Ama intensamente, irreparavelmente, porque a cada vez que ama alguma coisa estraga outras tantas.
Ela ama. Ama demais. Ama sem pensar.

A única coisa que nunca contaram à ela, é que não é amada.

sábado, 14 de agosto de 2010

[If my words are not that clear...]

"A felicidade é um exercício", os diálogos infindáveis com Deus são um exercício e a demagogia é uma arte. Estou cansada demais pra me exercitar. E, sem dúvida, sou uma artista de primeira. Talvez, como Mack, eu tenha dois pés no passado, "Na Grande Tristeza", na perda irreparável que mata a cada vez que se distrai. Talvez eu nem possa viver o presente da forma como deveria por já ter morrido tantas vezes. Por não acreditar, por não querer. Não sei. Sei de muito pouco, na verdade. Pouco de tudo. Pouco do passado, do presente e de mim. O futuro, como Mack e todas as outras pessoas, eu também tento adivinhar. Talvez morra mais um pouco a cada dúvida que se arrasta, a cada história abandonada. "I can't help it". É mais forte do que eu. E essa é só mais uma história abandonada. Eu sou uma pessimista convicta. Ainda espero que a cabana manchada e sombria vire um chalé florido com um lago e um céu estrelado para se ter a impressão de ser engolida. Seria isso um traço de otimismo?

Por Ju em [If my words are not that clear...] em 22/08/09

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

[A maldição da página em branco]

Seca de palavras. Não por falta de pensamentos, e sim por pura falta de palavras. Meus pensamentos não conseguem manter-se alinhados em texto. Fogem, correm, rebelam-se. É brainstorm ao contrário.
E olha que por aqui chove bastante.

"There is no parasol that could shelter this weather."

Quando meus pensamentos voltarem para casa, eu também volto. Volto pra dizer tudo o que não disse. E mais, pra dizer que eu ainda acredito. E ainda mais, pra dizer que eu estou nas mãos de alguém.
E eu estou adorando.
E mais nada.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

[Taunted, cruel]

"Please could you stay awhile to share my grief?
For its such a lovely day
To have to always feel this way
And the time that I will suffer less
Is when I never have to wake"


Portishead - Wandering Stars

Essa banda tá me levando pro fundo do poço.

sábado, 17 de julho de 2010

[It's time to move over]

"From this time unchained
We're all looking at a different picture
Through this new frame of mind
A thousand flowers could bloom
Move over and give us some room"

Portishead - Glory Box.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

[Divine]

Apaixonados tem o péssimo hábito de divinizar seus amados. Tudo é lindo, cada palavra é música, cada gesto é doce, cada momento é um presente dos deuses. Os dias passam e esses seres amados vão se igualando aos tais deuses. Sobem alturas absurdas, tornam-se onipresentes, tornam-se essenciais, tornam- se o motivo do riso, da lágrima, da falta de sono e fome. Tornam-se vitais, estratosféricos.
Quando o apaixonado descobre que este ser mágico é, na verdade, um ser comum como tantos que andam por aí, é quando tudo começa a mudar. Como aquele ser tão perfeito pode tornar-se tão comum em questão de minutos? Como ele pôde cair de uma altura tão alta em tão pouco tempo? Como ele pôde me decepcionar tanto?
Na verdade, não nos apaixonamos por pessoas, e sim por seres divinos que não existem.
Não existem.

Olhar um ser divino tornando-se um ser comum é triste como ver um rio secar, porém, junto com o rio, secam as lágrimas. O encanto finalmente acaba.

domingo, 11 de julho de 2010

[Zombie]

As coisas funcionam assim: começou com muita palhaçada, eu venho.
Tudo pra mim é muito fácil. Amor, desamor, pegação, fora... Tudo é uma coisa só, tudo no final da na mesma: problema. Então sou encarregada do serviço sujo, de arrumar a lambança que essa porra costuma fazer. Venho, trabalho por uma noite e pronto.
Hoje precisei vir. Calça justa, salto, pose de modelo dos anos 70 com um pelerine cinza. Faturei uns quatro, só pra sair com o ego inflado mesmo, porque eu faturo e não pego ninguém. Faço o tipo "me quer? Tá caro...". No bom sentido da brincadeira, óbvio. E mais óbvio é que não tem ninguém disposto a pagar o quanto eu cobro.
Vim e arrumei a situação. Ser grosseira e mocréia é comigo mesmo. Coloquei o mano engomado pra passear, mostrei que aqui o negócio é mais difícil do que se imagina. Ajudei a pobre moça machucada, e ela voltou para casa com uns 50kg a menos na lomba.
Agora, amiga, é contigo. Você escolhe. Ou você continua em casa se descabelando por quem nem te liga pra saber se tu tá viva, ou corre atrás da bola. Eu estou de férias por tempo indeterminado depois dessa que tu me arrumou.

Kissez and best wishes,

Jeanie Jones.

terça-feira, 29 de junho de 2010

[Carta para o Infinito]

Paixão é paixão e eu já te falei sobre isso. Paixão vem e vai do mesmo jeito que veio. É pele, é ventania, é não-lugar. Amor não. Amor é a paixão que sobreviveu aos defeitos do outro. É a tolerância, é a acomodação da poeira levantada, é a calma que a certeza traz na mão direita.
Hoje, o que eu sinto por você, não é paixão. Foi paixão um dia. Dias que eu chorava e te mandava e-mails te chamando de infantil, dias que eu pintava calendários esperando você voltar, enquanto eu emagrecia e bebia compulsivamente na esperança de sair do ar pra não imaginar o que você estaria fazendo longe daqui. Fazia promessas e chorava e pedia pra te esquecer. O que eu sinto hoje é calmo (apesar de toda a minha pressa), é te olhar e saber quem é você. É saber que eu não preciso surtar pra você entender o que eu estou sentindo. É saber que ir embora na hora que eu vou colocar tudo a perder, é a melhor estratégia. É ter a certeza que se eu continuar colocando tudo a perder, eu também vou te perder. E isso é tudo o que eu não quero que aconteça.
Cansei de negar você na minha vida. Cansei de dizer e tentar mostrar que você é menos importante do que realmente é. Você é essencial. É o tipo de pessoa que deixa um buraco quando vai embora, é a pessoa que ilumina todo o "dark side" que mora dentro de mim. Estar com você me faz querer ser melhor, me faz querer ser eu, me faz querer ser sua. Nesse momento não consigo imaginar uma outra pessoa andando do meu lado. Pra ser sincera, eu até tento, mas na atual fase em que me encontro, não consigo. É você. Ninguém me conhece da forma como você conhece, ninguém é tão parecido comigo, ninguém consegue ver através de mim como você consegue.
Talvez seja destino, talvez não. Talvez tenha mais nos próximos capítulos, talvez não. Eu não imaginava que essa história chegaria aqui, não consigo imaginar aonde ela vai dar. Até tento e gasto muita energia nisso, mas a cada curva, eu tomo um susto. E se você quer saber, eu passaria por tudo de novo, tomaria cada susto, cada tombo, cada sorvete.
Hoje, o que eu sinto por você é amor. É meio estranho, meio ansioso, meio medroso, mas é. É querer dividir. É te querer do jeito que você é, saber que vou surtar por isso, e ainda assim querer estar do seu lado cada vez que eu puder.
Hoje, se eu pudesse escolher uma pessoa para ser "a minha vida", seria você.

Play -> Simple Minds - Don't you (Forget about me).
Foda-se o Yellowcard!

sábado, 12 de junho de 2010

[Feliz Dia dos Desnamorados!]

Tem gente que namora e não vai comemorar.
Tem gente que namora e nem ali queria estar.
Tem gente que namora e não tem quem abraçar.
Tem gente que namora e sequer quer conversar.
Tem gente que namora e não sabe o que é amar.

Eu não namoro... Mas estava com queria estar, falei o que queria falar, amo o quanto puder amar.

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terça-feira, 8 de junho de 2010

[Move on]

Menina com os pés na cabeça. Pergunta-se diariamente o que veio fazer aqui. Olha para os lados como se estivesse esperando aquele trator passar por cima dela. Não olha com cuidado, olha com a ansiedade daqueles que pedem por ajuda.
Menina com os olhos no chão, chegou a hora de olhar para o céu. O verde enjoa, olhe bem o azul. O azul, diferente do verde, te dá mais cor. Vai além do marrom molhado de água salgada.
Menina do coração acorrentado, toma a tua liberdade. Corre, voa daqui. Sai do teu corpo se for preciso, vai embora. Te dou tua chave, aquela que levaram de ti naquele dia molhado e gelado. Abre teu peito, solta a tua luz. Ilumina em outro lugar.
Menina na ponta dos pés, te mostro um caminho. A estrada não é curta, o caminho não é fácil. Vai embora e não olha pra trás. Você sabe que ele vem, então corre logo antes que ele lhe roube novamente.
Foge, menina. Foge que a tua vida agora é tua novamente.

Segue em frente.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

[Pour que l'amour me quitte]

Bati a cabeça com força na parede. Qualquer coisa deveria me distrair agora. Qualquer coisa deveria doer mais do que isso aqui. Esse nó, esse desespero, essa confusão. Fecho os olhos e tento sentir qualquer parte do meu corpo. Não dá. Fecho os olhos e vejo você, sinto você. Nem aqui consigo ficar longe do seu cheiro. Esse cheiro que me enjoa, que me faz sentir saudade, que me segue.
Hoje olhei as horas passando enquando esperava você chegar. E eu sabia, sabia que você não chegaria. Tanto tempo passou e eu ainda não aprendi todos os seus jogos.
Preciso te encontrar, e é hoje. Eu vou e vou te contar tudo o que eu não disse durante todos esses dias que você passou aqui. Vou te contar que eu sou e sempre fui totalmente apaixonada por você, e que só não consegui ficar do seu lado até hoje, por ter medo de mim e de você. Por saber que de tanto sermos tão iguais, nós vamos causar uma tragédia juntos. Por saber que você não vai aguentar ficar parado do meu lado, por saber que você não tem lugar nesse mundo. Vou te contar que eu desisti de casar aquela vez que te vi e pensei que nunca mais poderia pegar na sua mão. Que eu nunca mais poderia deitar do seu lado, no escuro, ouvindo música e rindo de quando a gente era criança e apaixonadinho. O "nunca" mais poder te tocar já me fez desistir de muitas coisas. E eu só quero que você saiba disso. Que saiba o tamanho do que eu sinto, o tamanho do meu medo, o tamanho da confusão que você causa dentro de mim.
E se preprara, porque é hoje.

"Trop aimer c'est pas normal
Un coeur si mal
Accroché,
Décroché"

segunda-feira, 10 de maio de 2010

[She lights a candle, but she doesn't know why]

Meu Deus, essa é uma oração. Minha mãe me ensinou desde bem cedo que não precisamos rezar o "Pai Nosso" para conversar com o Senhor. Isso é verdade? Preciso conversar. Terapia está cara e a que a Prefeitura oferece para os funcionários da Educação, não terá vagas tão cedo. Se o Senhor tiver ouvidos, por favor me escute. Aproveite e sente-se também, por que o chumbo é grosso, posso demorar a terminar.
Sabe, Senhor, as vezes penso que sofro de uma falta de sorte crônica. Assim, nada parece dar muito certo na minha vida. As vezes penso ser sortuda demais, as vezes tropeço no meu azar, as vezes lembro de agradecer por tudo o que tenho e por tudo o que aprendi com o que/quem perdi, mas sabe, é difícil me lembrar de agradecer por tudo o que eu já sofri por aqui. Acho que para isso precisamos ser muito evoluídos, e eu nem sou tanto assim. E acho que nem quero chegar lá, pra falar a verdade. Ter consciência e compreensão demais deve ser um tanto chato. Prefiro poder surtar, gritar de vez em quando, sair correndo pela rua e pagar uma de maluca pra uns e outros. Será que é melhor assim? Não sei.
Penso porque as coisas acontecem de forma tão complexa pra mim. Por acaso o Senhor já me viu em paz? Assim, completamente em paz? Óbvio que não. Constantemente estou no olho do furacão, e quando eu acho que as coisas estão indo pelo caminho certo, estão se acomodando, minha vida dá um 360° e tudo muda novamente. Não tenho medo de mudanças, mas uma hora isso enche o saco. Será que sou eu quem provoca essas mudanças? Será que sou uma dramática de plantão?
Sobre o coração. Aí o Senhor tá de sacanagem comigo, né Deus? Meu, quando que eu tive um relacionamento tranquilo? Tá, eu tive. Um só. Durou pouco e eu não tinha do que reclamar, até ele reaperecer dez anos depois e me levar pra cama com o maior papo furado e desaparecer na neblina no dia seguinte. Tá vendo? Eu exagero? Claro que não! Tenho uma coleção invejável de trastes e histórias tragicômicas para contar. Isso é uma síndrome? Tem cura? Que coisa, eu não aguento mais. Será que é pedir demais pro Senhor dar uma forcinha pro destino e colocar alguém decente no meu caminho? Só decente já tá bom, nem peço um bonitão. Por tudo isso, ando pensando em produção independente. Sabe aquele papo do "antes só do que mal acompanhada"? É por aí. E outra, mulheres que engravidam depois dos trinta e cinco anos de idade tem maior probabilidade de gerar filhos autistas. Tá brincando, né? O Senhor quer me transformar numa mulher paranóica?
Agradeço pela minha família. Eles são todos meio pimbas da cabeça, raramente me entendem, mas se esforçam um bocado pra tudo dar certo. Agradeço pelo meu irmão, que é uma das pessoas mais cretinas e importantes pra mim. Peço que dê sabedoria à ele e saúde à filha dele, a Gordinha. Eles são os meus grandes amores. E à minha mãe, que nem se fala... Essa aí é o meu porto seguro, mesmo quando está balançando com o vento.
Me tornei uma pessoa religiosa aos poucos. Fui crescendo e entendo porque o mundo é mundo e porque as coisas acontecem com as pessoas. Fui acreditando no invisível e aprendendo aos poucos a valorizar o que é simples, o que é sincero. Ainda escorrego e sei que não sou tão boa filha. Um pouco relapsa, um pouco desleixada, um muito preguiçosa. Agradeço aos Orixas que me guiam e me colocam diariamente em pé, com vontade de acabar mais um dia. Agradeço à chuva, ao vento, às árvores que me rodeiam e nunca me deixaram perdida no meio das minhas trilhas em matas fechadas. Já sentei na terra muitas vezes e chorei, mas o assovio sempre me guiou por onde o rio corre, me levando ao fim de mais um caminho. Aliás, há tempos não faço trilhas! Estou ficando uma velha de marca maior. O tempo está passando pra mim, Senhor. E eu não estou exagerando novamente. O tempo passa, e passa rápido demais pra eu dar conta de tudo sem deixar passar nada. Tempo. Eu não sei o que eu faço com ele.
Senhor, acho que falei demais e não disse nada. As vezes é mais fácil colocar a culpa em alguém e pedir ajuda, do que se mexer efetivamente. Sinto que estou falhando demais. Estou triste demais, bagunçada demais, perdida demais. Preciso, hoje, de uma direção e de um colo. Preciso ser vista da maneira como realmente sou, sem muitos enfeites e palavras bonitas. Hoje, não sei mais o que me falta.
Acho que vou parar por aqui, Senhor. Outro dia, se o Senhor estiver disponível novamente, a gente conversa mais um pouco. Deve ser difícil ouvir e atender à todos os que pedem para conversar também, eu entendo. Peço que pense com carinho nas minhas palavras, que sinta o que eu sinto agora. E que, principalmente, me aponte um caminho que me leva a algum lugar.
Obrigada.
Amém.

[Rápido, rasteiro e fatal]

Um tiro bem no meio da testa. Daqueles que não deixam um rombo e sim uma singela marquinha, de longe, até bonitinha.

E como diria Gerard Way, "Mama, we all go to hell."

domingo, 9 de maio de 2010

['Cause it's all about love]

Elisa - Dancing

Essa é só a música mais linda que eu já ouvi.

[Teen Hearts]

E num instante de loucura-lucidez, eu grito tudo o que eu não falei nos últimos quatorze anos pra você. Quatorze anos, cara. É uma vida. Você me abraça com olhos verdes e diz que está tudo bem, tudo bem, tudo bem. E vai embora. Vai embora e deixa as saudades de ontem, de hoje e do amanhã que nunca chega. Dos quatorze anos que passaram sem você aqui. Você indo e voltando e dizendo que eu estou ficando louca ou que eu estou bêbada demais, ou que eu sempre fui o amor da sua vida. Não, não. Eu nunca bebo demais. Eu nunca fui o amor da sua vida.
Os dias passam e você vem e vai. Some e eu finjo que te liguei por engano, dizendo que estava dirigindo e fumando e pensando no meu irmão. Foge de mim, que eu fujo de você. Quem chegar primeiro, ganha.
Não me liga nunca mais cantando, sussurando ou falando esse texto ensaiado, velho, de quatorze anos atrás. Eu te conheço, você me viu crescer. Eu não sou mais aquela menina que treme quando te vê. Some, mas some de vez. Leva essa música, esses olhos e todas as pseudo-decepções que você diz que eu te causei. Leva esse pedaço meu-seu que fica pendendo por toda a vida, me fazendo desistir de pessoas, lugares, só pra te ver. Foge de mim, que eu fujo de você.
E, por favor, não volte.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

[Don't let the sun be the one to change you, baby]

"Ela voa! Ela voa!" - gritava uma criança olhando pra cima, maravilhada ao ver uma mulher voando.

Ela tentava, dava rasantes e espatifava no chão.
Como é fácil enganar as crianças.

















Play -> The Magic Numbers - Forever Lost.

terça-feira, 4 de maio de 2010

[Stolen]

Hoje, no ônibus cheio de volta para casa, lembrei de uma pessoa que eu nunca vi na vida. Na verdade, não sei nem porque lembrei dele, só sei que tenho lembrado muitas vezes desde que ele ficou sabendo que eu existo. Isso foi há algum tempo, mas o que ele não sabe é que eu já sabia que ele existia há muito mais tempo. Estranho? Coincidência? Não sei. Talvez só a internet mesmo. E tenho certeza de que ele nem pensa sobre isso da mesma forma que eu penso. Tenho o péssimo hábito de romantizar tudo.
Como não posso pensar por muito tempo em quem não conheço (até por falta de continuidade e "assunto" comigo mesma), lembrei de um post que ele fez um dia no blog que escreve. Talvez tenha sido esse post que me chamou atenção, talvez por ele dizer ali tudo o que eu queria dizer também. E principalmente, viver.

Dia de cão. O caos está tomando conta de mim. Cansada de brigar pelo o que mais ninguém acredita. Dia longo. Onze horas dentro de uma escola é o suficiente para acabar com a minha raça. Hoje eu não aguentei. Sentei e chorei, mas não foi por mim.
Caminho longo. Ando pensando seriamente em ir trabalhar de carro. Mesmo gastando quase a metade do meu salário em gasolina, não vou precisar aguentar a falta de educação dos filhos das putas que cruzam o meu caminho diariamente. Sairia muito mais barato virar uma filha da puta também, mas... Bom, o caminho longo me dá tempo de sobra para pensar. Hoje pensei em namoro. Não qualquer namoro, com qualquer pessoa que eu pense estar apaixonada. Um namoro simples, descomplicado, recíproco, verdadeiro, careta. Eu quero namorar assim. Eu quero alguém pra chegar em casa, deitar no colo, chorar tudo o que eu tiver pra chorar e, ali mesmo, começar a fazer amor, embaralhar os pés e adormecer de conchinha. Isso faz falta e há tempos não me sinto a vontade para ter um final de dia assim. Aliás, não sinto vontade.
Acho que chegou a hora. A hora de arrumar as prateleiras dentro de mim. As coisas andam bagunçadas, abandonadas, empoeiradas... E eu preciso de ajuda na faxina. Sozinha não dá mais.
Hoje eu precisava de alguém esperando por mim, com um sorriso no rosto e "conselhos reconfortantes".
"Será pedir demais?"

sábado, 1 de maio de 2010

[Cartas para Ana - Do começo]

Santos, 01 de maio de 2010.

Ainda lembro perfeitamente do dia em que fiquei sabendo que você existia. Era um dia de cão, a escola estava quase pegando fogo, e tudo o que eu queria fazer era aprender a evaporar. Seu pai me mandou uma mensagem no celular dizendo "Parabéns, titia!". Eu estava em pé ao lado da minha mesa, li a mensagem e me perguntei que tipo de brincadeira era aquela logo de manhã. Não dei muita importância, seu pai sempre foi um grande bobo. Logo depois, me liga a sua avó, chorando e dizendo que eu realmente seria tia. Pois é. Fechei a porta da minha sala, sentei em minha mesa e fiquei imaginando qual seria a próxima bomba do dia.
Fiquei algum tempo sem conversar com o seu pai. Desempregado e namorando há pouquíssimo tempo, ele estava me dando a prova de que não era nem um pouco responsável. Brigamos muito, chorei bastante. O seu pai sempre foi o grande amor da minha vida, o motivo de grande parte da minha preocupação, por isso a minha revolta. Como seria o decorrer dessa gravidez? Como ele faria pra te dar tudo o que você precisaria? Bom, Gordinha... A titia sempre foi metódica, chata e sofredora nata. Se for pra sofrer por antecipação, aí é melhor ainda. Tenho que admitir que tinha um ciúmes embutido, mas bah! Isso é coisa de mulher e um dia, quando você for maior, conversamos melhor sobre isso.
Fiquei muitos meses sem saber ao certo o que estava acontecendo. Participava, de longe, dos preparativos para a sua chegada. Sentia muito por isso, mas meu orgulho era maior. Foi assim até o dia em que entrei em uma loja, e desesperada comecei a comprar montes de roupinhas rosas, com babadinhos e a sua primeira calça jeans. Sim! Foi a titia que comprou a sua primeira calça jeans com lycra, cheia de botões no meio das pernas para facilitar a troca das suas fraldas. A partir daí, comecei a gostar da idéia de ter ficado pra titia, e comecei a ajudar a preparar tudo o que você fosse precisar para quando chegasse.

Desde então, já te amava loucamente e estava torcendo para que você chegasse trazendo luz, e principalmente, responsabilidade para o seu papai bobo.

sábado, 24 de abril de 2010

[Who knows where the cold wind blows?]

Sentada na janela do segundo andar, ela batia com pouca delicadeza os pés na parede de fora do prédio. Sentia prazer em ver as pastilhas coloridas de vidro espatifando-se em cima dos carros estacionados. Fazia isso sem motivo algum, só porque gostava. Gostava de sentir o vento no rosto, imaginar mãos no seu rosto, tranças nos seus cabelos. Era só o vento frio arranhando sua pele e embaraçando seu cabelo, mas ela não exergava assim. Era mágico, eram carícias.
Era sozinha. Tinha muito tempo livre. Já havia contado todas as fileiras de pastilhas coloridas. Tentava montar um sequência de cores, e acha um burro quem fez aquilo sem uma sequência. "Quanto disperdício de cores.". Gostava também de tranformar as placas dos carros estacionados em equações complexas. Para ela, isso era diversão.
Era sozinha. Sua companhia era a água corrente, o vento e o barulho das pastilhas de vidro no chão. Imaginava-se caindo lá embaixo lentamente, como num vôo libertador. Sentia-se presa, porém não tinha coragem de voar, mesmo sabendo como abrir a gaiola.
Era sozinha. E mais um dia passava sem que ela tivesse coragem de faz o que deveria ser feito. Mais um dia ali, sem um propósito, sem um bom motivo.
Era sozinha. Era mais uma. E seria assim até que tirasse do pensamento que estaria aqui, mesmo quando não estivesse mais.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

[ ]

Hoje estou me sentindo vazia. E nem assim consigo alguma coisa útil pra escrever. A seca de criatividade perdura nos meus pensamentos. Eu costumava escrever bastante nesses momentos de vazio, de tristeza. Hoje, nem sei mais o que me falta.

A chuva. Hoje ela não cai de mansinho.
Nem lá fora e nem aqui dentro.
Que pelo menos, ela deixe tudo novinho.

Amanhã é um outro dia. Ou não.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

[Girl Disappearing]

Eu. Juliana, 27 anos, caiçara de alma e coração, de saco cheio de quase tudo. Metódica, organizada e chata. Odeio rotina, mas não me tire a minha. Me perco, me atraso e preciso dela pra começar o outro dia. Odeio que mexam em minhas coisas, mas não me importo de dividir nada com ningém. Sou difícil, mas quem souber me levar, leva até as minhas roupas do corpo.
Pedagoga. Trabalho como Orientadora Educacional. Comecei cedo no serviço público. Já trabalhei com os pequenos, com os grandes, e hoje, trabalho em uma escola mista com salas regulares e salas de educação especial. Sou apaixonada pelo o que faço, trabalho sorrindo o dia inteiro. Amo todos os meus alunos, mas tenho uma queda pelos especiais. Amo-os e faço o que puder para garantir que estejam bem dentro e fora da escola. Um briga deles, é uma briga minha. E eu brigo de verdade.
Sou meio careta, meio desordenada. Sou séria uma parte do dia, mas gosto de levar a vida da melhor maneira possível, sem muito siso. Sou da rua, sou do vento, sou da chuva. Não gosto de me sentir presa, não gosto de dar muitas satisfações, mas se gosto da pessoa, não me importo, eu dou todas.
Sou fiel, mas nunca descarto a possibilidade de traição. O ser humano é falível e egoísta. Se alguém traiu, a culpa é dos dois. Alguma coisa estava faltando ali. Se eu trair, o outro será o primeiro a saber. Não peço perdão por atitudes conscientes, me deixo ser julgada nesses casos.
Tenho o dedo podre. Escolho as piores pessoas para me relacionar, me apaixono por elas também. Carrego um vazio dentro de mim por ainda não ter encontrado alguém capaz de me fazer enlouquecer de amor. Aquele que seria o motivo dos meus suspiros, o que seria o único, o que seria o último. Ainda não achei alguém capaz de me fazer sentir assim. Talvez um dia ele passe na minha frente, e eu espero reconhecê-lo. Espero também, que ele passe logo. Amor assim faz falta e eu tenho a necessidade de suspirar o dia inteiro. Quase me casei duas vezes. Fugi a tempo. Sou incapaz de estar ao lado de alguém sem vontade durante um dia, quem dirá uma vida inteira (na teoria, pelo menos). Amor faz falta e só caso com quem eu estiver profundamente envolvida, amando loucamente.
Estou com sono. Acordo todos os dias as 4:30 da matina.

Acho que chega de autopromoção por hoje.
Hum.
Ok.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

[5h48min]

Muito cedo, lá estava eu na minha feliz rotina diária, relativamente longe de casa, iniciando mais uma singela viagem até a outra dimensão, que é onde trabalho. Gosto de acordar antes da maioria das pessoas. É calmo, escurinho, tudo só pra mim. É quando eu consigo parar pra pensar.
Por falar em pensamentos, hoje o pensamento do caminho até a outra dimensão era: "se a minha vida tivesse uma trilha sonora, qual seria?". Difícil. Tentei achar uma discografia que pudesse traduzir pelo menos grande parte dos momentos mais inusitados que já passei e... Tcharãn! É Roxette, sem dúvida. Brega, com as calças excessivamente grudadas e com o cabelo descolorido até quase cair, imaginei a Marie andando atrás de mim diariamente com um microfone na mão. Em segundo lugar na "top list" da trilha sonora da minha vida, viria sem dúvida, a diva Cyndi Lauper, também dona de uma breguice descontrolada.

Dentro dessa trilha sonora híper não-precisa-nem-explicar, procurei uma música que pudesse ser tema da próxima notícia que eu darei para meu estimado papai.

"Papai, eu não vou mais casar! Estou solteira!"
Now playing: "Better off on her own", Roxette.

Eu não sei viver sem ser feliz.

domingo, 21 de março de 2010

[...]

"Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas as margens que o comprimem."
Bertolt Brecht.

E no final das contas, o rio não é um desembestado. É o entorno que o sufoca.
Alguém me salva de mim mesma, por favor?

[All I know is that It feels like forever]

Hoje visitei terras inférteis. Andei e conversei com vagalumes. Aqueles, esquecido e apagados por qualquer motivo que não fosse o meu. Eu quase escorregava na umidade espalhada pelo chão mas mesmo assim, num balanço, eu tentava descobrir o que sempre me levava pra lá. Eu não sei e acho que nunca vou descobrir. Nunca vou descobrir o motivo da umidade, da infertilidade, o motivo de eu deixar me levar.
Só eu sei o quanto eu queria. E só eu sei como esse balanço me deixa tonta. Os desencontros. Os encontros. O nunca estar lá e há anos tentar sair de lá.
Um dia, quem sabe, uma explicação plausível caia no meu colo me fazendo entender. Ou quem sabe, eu morra esperando encontrar na prateleira de um supermercado. Assim, de bandeja, se doando em alguma promoção imperdível.

O tempo passa. Os tratores passam. E eles não voltam.
Eles não voltam.

"Don't know how much time has passed
All I know is that it feels like forever
When no one ever tells you that forever
Feels like home, sitting all alone inside your head"

Relembrando o finado " Through The Glass".


quinta-feira, 18 de março de 2010

[Dentro dela, ela carrega um infinito]

Geralmente a olho de longe. Por puro medo, confesso. Ela, tão pequena, vive num mundo completamente paralelo ao meu. Ela bate e não assopra, ela desmonta, ela joga armários no chão. Ela tem mania de ter tudo em seu devido lugar. Ela tem toda a força e perfeccionismo que eu jamais teria. Ela vive para isso, para desmontar, bater, quebrar e tentar arrumar as coisas de acordo como a sua insanidade manda. Ela tem o apelido de Senhora Tempestade. Por onde ela passa, tudo levanta do chão. Ela é magra, com cabelos negros até a cintura. E quem a vê de longe, não imagina a força que tem.
Enfim, passei dias e dias olhando aquela pessoa de longe, sem tocá-la e imaginando que sequer pra ela eu existisse. Assim, cada uma no seu mundo, os meses foram passando sem que ela me olhasse nos olhos.
Ontem ela encostou em mim. Parou, me olhou e fez um barulho que eu não conseguia imaginar o que queria dizer. Eu tremia por dentro, imaginando que agora era a hora de eu levar um safanão... "Todos levam, porque eu não haveria de ganhar um também?" Mas não. Ela pegou a minha mão, fez outro barulho indecifrável com a boca e colocou a minha mão em cima do seu coração. Fez outro barulho e me deu um lado da face... E eu a beijei. Dei-lhe um beijo no rosto e ela seguiu seu caminho, como quem já estivesse feliz e satisfeita.

Hoje ela faz parte do meu mundo. E eu faço parte do mundo dela.
Mas as tempestades continuam... Para mim e para ela.

terça-feira, 9 de março de 2010

[Osmose]

No meio deles, me sinto perdida. Sinto dor, tontura, uma coisa que me suga, que me dá vontade de chorar. Sinto a tristeza e dor impregnada naquelas paredes. Paredes que deveriam ser impregnadas de alegria e gritos de felicidade. Eu sinto medo. Mas ao mesmo tempo, eles fazem com que eu me sinta agradecida por ser como eu sou, me fazem agradecer a vida que eu tenho e me fazem ser um pouco mais apegada com o invisível. Me preocupo com eles. Me preocupo com remédios, com a responsabilidade, com problemas que eu não posso resolver. Quero tentar fazê-los sorrir, quero que eles me olhem e me vejam ali. Quero, de qualquer forma, mostrar que eu faço parte do mundo deles também. Quero ajudar e não consigo.

Quero tirar tudo isso de dentro de mim, mas não consigo.
É... Acho que é a água.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

[...]

Aquilo era só uma montanha de lixo.
Grande, com cheiro de terra molhada, com cupins e alguns outros bichos que ela nunca vira antes.
Era hora de se desfazer de cada peça.

Hoje é dia de faxina... Dentro de mim.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

[Single Ladies]

Beyoncé já mandava um apelo por todas as solteironas de plantão. E é assim, pressão, dedos vazios, pais cobrando o tão esperado neto. Lembro de estar deitada no sofá pensando "com vinte eu caso, com vinte e dois tenho filhos". Não, a vida não é um saquinho de jujubas. E, quando crescemos, percebemos que casar aos vinte é loucura, casar é caro, homem não presta e rotina esmaga qualquer amor, reduzindo o seu sonho à uma insanidade.
Há alguns meses estava eu, sentada no sofá do meu pai, gargalhando enquanto ele chorava e dizia: "eu só queria que você fosse feliz, eu só queria ver você entrar na igreja.". Pois é, papai... Eu tenho quase trinta. Ainda bem que sempre tem aquela amiga solteirona que vai andar pelo calçadão da praia só pra morrer de vontade de chutar todo e qualquer casalzinho feliz que atravesse nosso caminho.
A moça faz vinte anos de idade e começa a namorar. Faz um ano de namoro e os tios dela passam aquela festinha de família insuportável dizendo: "e aí meu rapaz, quando você vai parar de enrolar a minha sobrinha?", tornando tudo mais insuportável ainda. A moça faz vinte e cinco e termina o namoro porque descobre que o namoradinho era um bosta, que jamais seria um bom marido. Sorte dela, sem dúvida. Agora ela pode parar de pensar na festa de casamento para finalmente gastar tudo o que economizou na loja de roupas mais próxima. E vai, e gosta daquilo. Dali pra frente são festas, baladas e o sentimento de que agora sim está aproveitando a vida.
Só que o tempo passa e a solidão aperta. O "one night stand" já não é tão legal assim e a estabilidade faz falta. Nos conformamos que a Branca de Neve catou o último príncipe e no reino só sobrou aquele carinha confuso, que se acha a última bolacha do pacotinho, que peida e dá risada do próprio peido. É isso que temos, azar. Bom, resumindo: o carinha que peida e ri se torna um partidão. Nos resta agora a esperança de ensiná-lo bons modos.
O ruim agora é contar pra'quela sua amiga que você está feliz como um casalzinho do calçadão, e está fora da guerra. Que agora, vai casar.
Afinal, eu tenho quase trinta.

Bom, amiga... Eu vou casar.
E meu pai vai parar de chorar.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

[Eu te amo]

"Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir"

Chico Buarque - Eu te amo.

Era uma despedida. Era tarde de Sol e era hora de partir. Parecia ser mais difícil para ela do que para ele. Ela escondia algumas lágrimas pelo vidro do ônibus, ele sorria sem graça, com uma cara que entregava todas as dúvidas que estavam ali entre os dois. Ela virou-se, tentando mirar aquele rosto por mais alguns segundos. Ele olhava, sorria e acenava com a mão enquanto falava algumas frases que ela não entendia por conta da distância e do vidro do ônibus. Ela fingia entender algumas e entendia outras.

- Eu te amo.
- ?
- Desculpa. Eu te adoro.
- Eu também te adoro.

Ele morria de vergonha por ter falado aquilo. Ela deu graças a Deus depois que o ônibus andou, não conseguia mais segurar a risada. Havia entendido justo a frase que ele não queria dizer.
Ela também queria deixar escapar qualquer coisa do gênero.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

[Ella]

Ella era uma moça simples, recatada demais e com um tom pálido no rosto. Andava sempre olhando para baixo, talvez assim, sentindo-se maior do que realmente era. Sim, Ella não era nada. Levava consigo uma lança e uma nuvem escura, pronta para chover a qualquer momento.
Os rapazes não se interessavam por Ella, até porque ela raramente esboçava qualquer tipo de emoção. Era assim, só mais uma figurante no mundo, sem maiores contribuições para ninguém.
Ella não sabia ao certo o que fazia aqui. Não sabia ao certo o que faria de sua vida, que teimava durar mais tempo do que Ella gostaria. Nunca havia tentado nada contra ela mesma, mas as vezes rezava para que tudo acabasse como num sonho. Só que sem acordar no meio da noite.
Ella pensava em ir para a universidade, pensava em ser professora de língua portuguesa, daquelas solteironas que são ameaçadas na saída por serem intransigentes demais. Talvez assim alguém lembrasse de sua tragetória por aqui, nem que isso acontecesse anos depois, em uma roda de ex-universitários. Pensou também tornar-se astrônoma, mas não via uma real importância para isso. Jamais conseguiria fazer a diferença nesta área. Terminaria pobre, louca e olhando para as estrelas. Pensava talvez em casar-se, se finalmente desse um jeito naquela aparência mórbida, um rapaz poderia aparecer e se interessar por Ella. "Um rapaz que me leve em bons restaurantes, ouça jazz e me traga flores ao voltar do trabalho enquanto eu faço o jantar".
Que vida medíocre, Ella!
Ella não tinha família. Filha única, órfã de mãe e pai "desconhecido", assim dizia em sua certidão de nascimento. Isso não era uma boa coisa na época em que Ella nasceu, e suspeitava que sua mãe havia morrido de tristeza e abandono. Não conseguia lembrar-se muito bem nem de seu rosto, quanto mais do que havia morrido. "Sorte dela", pensava por alguns segundo.
Ella carregava uma lança e uma nuvem escura. Carregava a lança no peito e a nuvem bem acima de sua cabeça. Carregava dúvidas e uma vida gasta com nada.
Ella queria mudar. Sua vida medíocre e sem sentido estava chegando a um limite, Ella estava chegando aos vinte. Nem Ella aguentava mais viver em seu corpo. Ela estava decidida a ser alguém diferente a partir de agora.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

[Do começo]

Penso no tremer das pernas enquanto descia daquele ônibus. Não tinha certeza se tremia por ter ficado sentada durante dezesseis horas ou porque ali, finalmente, veria aquele rosto. Desci tremendo e disfarçando o meu estado ridículo de quem não imaginava o que fazer a partir daquele momento. Ridículo. Graças a Deus tinha um motorista simpático por perto para eu não ter que olhar diretamente pra ele, assim, entregando que eu já o havia reconhecido desde antes de chegar perto.
Um abraço meio torto me recebeu, mas eu também não sou muito boa em abraçar pessoas. Nunca fui. Demora e até já fiz cursos práticos para aprender a abraçar alguém de verdade mas, infelizmente, certas coisas ainda não consigo fazer com naturalidade. Um dia eu supero esse lance de abraços e proximidades e tal.
A melhor parte foi, sem dúvida, o beijo no ônibus. E putamerda, pegar um outro ônibus depois de dezesseis horas seguidas dentro de um, era o fim para mim. Mas não, foi a melhor parte. E melhorou ainda mais depois que ele repousou a mão sobre a minha. Puxa, eu tinha um desconhecido ao meu lado e me sentia a mulher mais feliz daquele ônibus só por ter ganhado um beijo sem maiores explicações e por ter uma mão sobre a minha. Isso não é o máximo? Não, não. Defitivamente não. O melhor não foram as mãos, e sim as pernas. Céus, como eu conseguia me encaixar tão bem entre pernas tão grandes? Aquelas pernas deveriam ter o tamanho do meu corpo! Talvez por isso ele conseguia me acolher com tanta delicadeza. Era ali o meu lugar. Entre aquelas pernas, com aquelas mãos, sentindo aquela barba grande passar perto da minha nuca.
Droga.
900 km? Não dava pra ser um pouco mais generoso comigo? Mas que coisa mais sem graça.
900 km. E eu iria muito mais longe pra sentir tudo aquilo novamente.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

[Say hello, babe!]

Andava pela rua com sacolas na mão. Pensava sobre flores e o perfume que cismava invadir seu sentido. Queria contar para todos como era andar com sacolas na mão enquanto sentia o perfume das flores. Era uma sensação estranha estar só num momento tão sublime como aquele. Por isso, resolveu voltar.

Por isso, voltei.