Penso no tremer das pernas enquanto descia daquele ônibus. Não tinha certeza se tremia por ter ficado sentada durante dezesseis horas ou porque ali, finalmente, veria aquele rosto. Desci tremendo e disfarçando o meu estado ridículo de quem não imaginava o que fazer a partir daquele momento. Ridículo. Graças a Deus tinha um motorista simpático por perto para eu não ter que olhar diretamente pra ele, assim, entregando que eu já o havia reconhecido desde antes de chegar perto.
Um abraço meio torto me recebeu, mas eu também não sou muito boa em abraçar pessoas. Nunca fui. Demora e até já fiz cursos práticos para aprender a abraçar alguém de verdade mas, infelizmente, certas coisas ainda não consigo fazer com naturalidade. Um dia eu supero esse lance de abraços e proximidades e tal.
A melhor parte foi, sem dúvida, o beijo no ônibus. E putamerda, pegar um outro ônibus depois de dezesseis horas seguidas dentro de um, era o fim para mim. Mas não, foi a melhor parte. E melhorou ainda mais depois que ele repousou a mão sobre a minha. Puxa, eu tinha um desconhecido ao meu lado e me sentia a mulher mais feliz daquele ônibus só por ter ganhado um beijo sem maiores explicações e por ter uma mão sobre a minha. Isso não é o máximo? Não, não. Defitivamente não. O melhor não foram as mãos, e sim as pernas. Céus, como eu conseguia me encaixar tão bem entre pernas tão grandes? Aquelas pernas deveriam ter o tamanho do meu corpo! Talvez por isso ele conseguia me acolher com tanta delicadeza. Era ali o meu lugar. Entre aquelas pernas, com aquelas mãos, sentindo aquela barba grande passar perto da minha nuca.
Droga.
900 km? Não dava pra ser um pouco mais generoso comigo? Mas que coisa mais sem graça.
900 km. E eu iria muito mais longe pra sentir tudo aquilo novamente.
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