quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

[Eu te amo]

"Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir"

Chico Buarque - Eu te amo.

Era uma despedida. Era tarde de Sol e era hora de partir. Parecia ser mais difícil para ela do que para ele. Ela escondia algumas lágrimas pelo vidro do ônibus, ele sorria sem graça, com uma cara que entregava todas as dúvidas que estavam ali entre os dois. Ela virou-se, tentando mirar aquele rosto por mais alguns segundos. Ele olhava, sorria e acenava com a mão enquanto falava algumas frases que ela não entendia por conta da distância e do vidro do ônibus. Ela fingia entender algumas e entendia outras.

- Eu te amo.
- ?
- Desculpa. Eu te adoro.
- Eu também te adoro.

Ele morria de vergonha por ter falado aquilo. Ela deu graças a Deus depois que o ônibus andou, não conseguia mais segurar a risada. Havia entendido justo a frase que ele não queria dizer.
Ela também queria deixar escapar qualquer coisa do gênero.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

[Ella]

Ella era uma moça simples, recatada demais e com um tom pálido no rosto. Andava sempre olhando para baixo, talvez assim, sentindo-se maior do que realmente era. Sim, Ella não era nada. Levava consigo uma lança e uma nuvem escura, pronta para chover a qualquer momento.
Os rapazes não se interessavam por Ella, até porque ela raramente esboçava qualquer tipo de emoção. Era assim, só mais uma figurante no mundo, sem maiores contribuições para ninguém.
Ella não sabia ao certo o que fazia aqui. Não sabia ao certo o que faria de sua vida, que teimava durar mais tempo do que Ella gostaria. Nunca havia tentado nada contra ela mesma, mas as vezes rezava para que tudo acabasse como num sonho. Só que sem acordar no meio da noite.
Ella pensava em ir para a universidade, pensava em ser professora de língua portuguesa, daquelas solteironas que são ameaçadas na saída por serem intransigentes demais. Talvez assim alguém lembrasse de sua tragetória por aqui, nem que isso acontecesse anos depois, em uma roda de ex-universitários. Pensou também tornar-se astrônoma, mas não via uma real importância para isso. Jamais conseguiria fazer a diferença nesta área. Terminaria pobre, louca e olhando para as estrelas. Pensava talvez em casar-se, se finalmente desse um jeito naquela aparência mórbida, um rapaz poderia aparecer e se interessar por Ella. "Um rapaz que me leve em bons restaurantes, ouça jazz e me traga flores ao voltar do trabalho enquanto eu faço o jantar".
Que vida medíocre, Ella!
Ella não tinha família. Filha única, órfã de mãe e pai "desconhecido", assim dizia em sua certidão de nascimento. Isso não era uma boa coisa na época em que Ella nasceu, e suspeitava que sua mãe havia morrido de tristeza e abandono. Não conseguia lembrar-se muito bem nem de seu rosto, quanto mais do que havia morrido. "Sorte dela", pensava por alguns segundo.
Ella carregava uma lança e uma nuvem escura. Carregava a lança no peito e a nuvem bem acima de sua cabeça. Carregava dúvidas e uma vida gasta com nada.
Ella queria mudar. Sua vida medíocre e sem sentido estava chegando a um limite, Ella estava chegando aos vinte. Nem Ella aguentava mais viver em seu corpo. Ela estava decidida a ser alguém diferente a partir de agora.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

[Do começo]

Penso no tremer das pernas enquanto descia daquele ônibus. Não tinha certeza se tremia por ter ficado sentada durante dezesseis horas ou porque ali, finalmente, veria aquele rosto. Desci tremendo e disfarçando o meu estado ridículo de quem não imaginava o que fazer a partir daquele momento. Ridículo. Graças a Deus tinha um motorista simpático por perto para eu não ter que olhar diretamente pra ele, assim, entregando que eu já o havia reconhecido desde antes de chegar perto.
Um abraço meio torto me recebeu, mas eu também não sou muito boa em abraçar pessoas. Nunca fui. Demora e até já fiz cursos práticos para aprender a abraçar alguém de verdade mas, infelizmente, certas coisas ainda não consigo fazer com naturalidade. Um dia eu supero esse lance de abraços e proximidades e tal.
A melhor parte foi, sem dúvida, o beijo no ônibus. E putamerda, pegar um outro ônibus depois de dezesseis horas seguidas dentro de um, era o fim para mim. Mas não, foi a melhor parte. E melhorou ainda mais depois que ele repousou a mão sobre a minha. Puxa, eu tinha um desconhecido ao meu lado e me sentia a mulher mais feliz daquele ônibus só por ter ganhado um beijo sem maiores explicações e por ter uma mão sobre a minha. Isso não é o máximo? Não, não. Defitivamente não. O melhor não foram as mãos, e sim as pernas. Céus, como eu conseguia me encaixar tão bem entre pernas tão grandes? Aquelas pernas deveriam ter o tamanho do meu corpo! Talvez por isso ele conseguia me acolher com tanta delicadeza. Era ali o meu lugar. Entre aquelas pernas, com aquelas mãos, sentindo aquela barba grande passar perto da minha nuca.
Droga.
900 km? Não dava pra ser um pouco mais generoso comigo? Mas que coisa mais sem graça.
900 km. E eu iria muito mais longe pra sentir tudo aquilo novamente.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

[Say hello, babe!]

Andava pela rua com sacolas na mão. Pensava sobre flores e o perfume que cismava invadir seu sentido. Queria contar para todos como era andar com sacolas na mão enquanto sentia o perfume das flores. Era uma sensação estranha estar só num momento tão sublime como aquele. Por isso, resolveu voltar.

Por isso, voltei.